A cidade merecia realmente ser chamada de "Veneza do Oriente". Os rios funcionam como estradas e o barco é o principal meio de transporte. Diversas pontes cruzam os canais, cada uma com seu estilo próprio e sua história. A mais antiga das pontes foi construída em 1355, e as "Pontes Gêmeas", são as mais famosas. A arquitetura nas ruas é muito bem preservada, assim como os templos, pagodas, torres e casas residenciais. Muitas dessas construções foram erguidas durante as dinastias Qing e Ming, e sobreviveram ao tempo e às disputas de poder.
No meio dos restaurantes, tendas de artistas e bancas de comidas tradicionais, encontrei muitos estabelecimentos especializados no prato mais típico da cidade. O tendão de porco assado, defumado e escaldado. A aparência não é das mais agradáveis. Um pedaço de osso, com um pouco de carne e muitos tendões, com uma coloração marrom escuro e um forte cheiro ocre. Comprei umas lembranças em um artesanato, dois pequenos quadros que mostravam as Pontes Gêmeas, e alguns biscoitos. Passei longe do tendão de porco.
Eu caminhava bem tranquilo, prestando atenção a cada detalhe arquitetônico e tirando muitas fotos. Dois homens, com mais de 40 anos, começaram a andar do meu lado, falando em chinês.
-Você viu a barba dele?
-Vi sim, muito bonita.
-É, muito grande.
-Pede para passar a mão.
-Eu não, pede você.
-Então pede pra tirar uma foto.
-Eu não. Não quero passar a mão e nem tirar foto.
Eles jamais imaginariam que um estrangeiro, com cara e roupas de turista, poderia entender o que estavam dizendo. Mas eu entendi.
-Podem tirar foto, não tem problema – eu disse, olhando para os dois.
Eles pararam de caminhar, assustados. Não sabiam o que responder. Um deles tentou dizer alguma coisa, e apenas gaguejou algumas sílabas indecifráveis. O outro começou a rir, eu ri também.
-Você fala chinês?
-Claro, eu sou chinês – respondi, da mesma maneira que sempre respondo quando quero arrancar umas gargalhadas.