Samba, futebol, praia, cachaça, café. Como você já pôde perceber, estamos falando do Brasil. Essas são as referências mais fortes do país latino-americano entre os estrangeiros. Com o objetivo de apresentar similaridades, desmistificar estereótipos e agregar novos valores à imagem que os chineses têm do Brasil é que a jornalista Fernanda Ramone, que há seis anos mora na China, organizou em Beijing o primeiro Festival de Documentários Brasileiros no país.
Fernanda Ramone - É muito bom saber que as pessoas têm uma imagem do Brasil. Mas a gente não é só isso. Então, a minha intenção era trabalhar as diversas imagens que o Brasil tem. Não só os estereótipos de samba, futebol e carnaval. Eu sei que os chineses têm um interesse muito grande por cinema, e a gente consegue encontrar aqui DVDs dos filmes brasileiros mais famosos. Mas documentário não. Documentário é uma coisa muito alternativa ainda. E, por outro lado, através do documentário a gente tem uma visão mais realista do cotidiano, da realidade, de todo o cenário cultural. O Brasil e a China, apesar de serem super diferentes e distantes, têm muito em comum.
O evento foi destaque na mídia chinesa e estrangeira radicada na China, fazendo com que os 150 lugares da sala fossem ocupados em quase todas as sessões nos dois dias de exibição. Fernanda Ramone explica o critério de escolha dos oito documentários, legendados em chinês e inglês.
Fernanda Ramone - O critério de escolha foi brincar um pouco com essa imagem caricata que as pessoas têm do Brasil. Por exemplo, o filme que está passando agora chama-se "Periferia". Esse filme aborda a questão da inclusão digital, de como as pessoas nas comunidades menos favorecidas, mais pobres, estão usando a internet. É um tema contemporâneo, não só brasileiro, mas de todos os países neste século 21.
A ideia de estabelecer relações entre as duas realidades é bem executada no filme "Histórias de Amor e Demolição", que conta o drama de famílias paulistanas que tiveram suas casas demolidas em meio ao boom da especulação imobiliária. Em Beijing, desde 2003, milhares de chineses estão tendo de abandonar suas antigas casas, numa tentativa de remodelar e modernizar capital da segunda potência econômica mundial.
Fernanda Ramone - Outro dos filmes aborda a questão ambiental, que é o "Areias que Falam". O "Nenhum Motivo Explica a Guerra" aborda a questão da favela e da violência na favela, mas de uma forma positiva, através de um trabalho social que ofereceu aulas de música, de dança, de arte em geral. Com isso, as crianças e os adolescentes da favela conseguiram reverter o cenário de violência. É um documentário forte, mas com uma mensagem positiva.
O documentário "Sou Negro, não sei Sambar" conta a história de Patrício Salgado, um homem negro, bem educado que, apesar de ser neto do fundador de uma escola de samba, não sabe sambar. O filme transformou os conceitos que Yuan Mu, estudante chinês de língua portuguesa, tinha do Brasil.
Yuan Mu - Pensei que todos os brasileiros soubessem sambar, mas na verdade não é bem assim. Mas além disso, conheci através do filme o processo para aprender o samba e a tocar os instrumentos. Antes, só tinha visto uma apresentação de samba durante o Carnaval.
A programação do festival inclui ainda Mudernage, de Marcela Borela; Margem, de Maya Da-Rin; e Expedição São Paulo 450 Anos, de Sergio Roizenblit. A plateia também assistiu a debates de especialistas sobre a produção documental brasileira. A rota do Festival de Documentários Brasileiros inclui ainda Guangdong, Macau, Shenzhen, Hong Kong e Shanghai.
Repórter - Existe alguma ideia de fazer o mesmo no Brasil? Um Festival de Documentários Chineses no Brasil?
Fernanda Ramone – Claro, a ideia é realmente essa, fazer o Doc Brasil na China e o Doc China no Brasil. Que seja o primeiro de muitos e que seja uma plataforma de trocas e intercâmbios culturais entre Brasil e China."
A plateia, composta por chineses e estrangeiros residentes no país, também pôde assistir a debates de especialistas sobre a produção documental brasileira.
O festival terá ainda edições em Cantão, no próximo final de semana, e em Macau, em Shenzhen, em Hong Kong e em Xangai.