Escritora manchu, Ye Guangqin
    2009-04-02 14:44:59                cri

No programa Personalidade Cultura de hoje, vou lhes apresentar uma escritora da etnia manchu, uma das 55 minorias étnicas na China. Ela se chama Ye Guangqin. O sobrenome "Ye" vem do manchu "Yehenala", um dos oito maiores sobrenomes daquela etnia durante a dinastia Qing (1636-1912), a última dinastia feudal chinesa. Com o decorrer do tempo, esse sobrenome foi abreviado para "Na" e "Ye".

A família Yehenala era da classe fidalga da corte da dinastia Qing, o que trouxe, no entanto, muitos sofrimentos a Ye Guangqin durante certo período. Como uma moeda que tem duas faces, a vida dura levou Guangqin a se dedicar à criação literária. A seguir, vamos dar uma olhada no caminho especial que essa escritora chinesa passou.

Ye Guangqin nasceu no final da década de 1940, em Beijing, capital chinesa. O pai dela faleceu cedo, e sua mãe, muito doente, não tinha nenhuma fonte de renda, só a hipoteca dos bens da família. No processo de transição da China de um regime semicolonial e semifeudal para o socialismo, os descendentes da "antiga nobreza" eram muito discriminados. Guangqin sofreu com isso desde a adolescência. Aos 19 anos, ela foi envolvida, como muitos jovens chineses de então, na campanha chamada "subir à montanha e descer aos campos", resultante das turbulências causadas pela Revolução Cultural. Ye Guangqin foi enviada à província de Shaanxi, no Oeste do país, iniciando uma vida dedicada à lavoura e à criação de porcos.

Ye Guangqin considerou a mudança de Beijing para o Oeste despovoado como uma sorte, ao invés de algo lamentável. Na história chinesa, Shaanxi também foi sede das dinastias Qin, Han, e Tang. Segundo Ye, tanto Beijing como Shaanxi a inspiraram muito na produção literária. Ela percorreu Shaanxi e adorou visitar tumbas imperiais, sentindo por ali os altos e baixos da vida. A experiência nos campos de Shaanxi, por outro lado, permitiu-lhe vivenciar pessoalmente as graças da vida bucólica descritas nos versos do poeta chinês, Tao Yuanming.

"Sob abrigo de toldos onde crescem plantas, ouvia e conversava com camponeses. Comemos legumes frescos. Senti tudo que foi descrito no poema de Tao Yuanming".

Ye Guangqin nutriu durante muito tempo o desejo de lançar livros. Até que, aos 32 anos, publicou sua primeira obra, Entre Marido e Esposa. O livro que lhe trouxe a fama nacional foi Ben Shi Tong Geng Sheng (Da Mesma Raiz, em tradução livre).

A obra narra a história de uma grande família. Depois dela, Ye Guangqin produziu sucessivamente três romances com a mesma abordagem, que foram adaptados para o cinema e a televisão e se tornaram grandes sucessos de público. Esses romances exibem os ritos complicados transmitidos nas grandes famílias feudais chinesas e as histórias ocorridas entre seus membros. O dialeto de Beijing é a principal linguagem que Ye usa nos seus livros. Quanto a isso, a escritora falou:  

"A cultura de Beijing tem um impacto profundo em mim, apesar de eu ter vivido naquela cidade por apenas 19 anos, tempo curto se comparar a minha permanência em Xi´an (capital de Shaanxi), que durou cerca de 40 anos. Do hábito à língua, do modo de pensar ao senso de humor, tudo isso vem de Beijing e nunca vai mudar. Estou em Shaanxi há tantos anos e tentei me infiltrar na cultura local. Mas enfim, o que tem em Shaanxi só consegue me influenciar, mas não vai me dominar".

Em 1990, Guangqin foi estudar no Japão. Após o retorno, foi transferida à Associação de Setores Literário e Artístico de Xi´an. Em 1999, assumiu a vice-presidência da entidade.

No começo do ano passado, publicou o romance Qingmuchuan, cuja conclusão levou dez anos. A obra foi bem recebida no círculo literário e fez o país conhecer Qingmuchuan, um pequeno distrito localizado na divisa entre as províncias de Shaanxi, Gansu e Sichuan.

O livro conta a história de um "bandido", personagem inspiradora na vida real, além de descrever as paisagens e os costumes locais. Ela recorda:

"Antes de ir pesquisar, já definia o homem como bandido. Mas depois de eu chegar ao local, descobri que é difícil defini-lo com essa palavra. Ele andou cometendo malfeitorias fora, mas em sua terra natal, investiu na fundação de escolas e na construção de pontes. Contratou professores para ensinar russo e inglês. Até agora, muitos idosos locais sabem falar inglês".

Quanto mais ficava sabendo, mais Ye Guangqin se surpreendia com tudo que via e ouvia. Para ela, um escritor responsável deve buscar sempre exibir as personagens partindo de um ponto de vista novo.

O terremoto de 12 de maio de 2008 causou grandes danos em Qingmuchuan. Ye Guangqin foi visitar os aldeãos após a tragédia. O que a consolou foi o fato de que a maioria dos moradores locais sobreviveu ao desastre.

Guangqin é uma escritora muito produtiva. Para ela, a criação é um processo árduo. Para produzir obras de qualidade, é preciso ser capaz de resistir às privações e à solidão.

"Hoje em dia, há muitas seduções em nossa vida e a gente se torna muito fútil. Mas os escritores não podem, em hipótese alguma, ser fúteis. Qual a responsabilidade de um escritor? Um escritor deve funcionar como massagista do coração dos leitores".

Ye está produzindo agora um romance que narra a história de Beijing. Ela pretende nomear cada capítulo com títulos de peças da ópera de Beijing. O objetivo, segundo ela, é mostrar detalhes da "Beijing antiga".

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