Retratando a China por experiência própria, uma entrevista com o jornalista português António Caeiro
    2008-12-18 14:36:41                cri

Pela China Dentro é um livro que conta as mudanças da sociedade chinesa entre 1991 e 2002. O livro tem uma capa totalmente vermelha e dois caracteres chineses, Zhong Guo, quer dizer, China, escritos a mão pelo próprio escritor. O autor é António Caeiro, jornalista português da agência Lusa. Hoje, ele vai nos contar sua experiência e as mudanças que ele viu e viveu na China.

Nascido em 1949, António Caeiro trabalha para a maior agência noticiosa portuguesa há mais de 30 anos. Entre 1991 e 2002 ele morou em Beijing e voltou à cidade em setembro de 2008. Antes de vir cá pela primeira vez, quase não sabia nada sobre o país, exceto que tinha uma imensa cultura e muita história. Mas ele achava que "era um lugar interessante para um jornalista que procura sempre novidades". Então, com grande curiosidade, António chegou ao país asiático distante.

No início da década de 1990, a China era ainda relativamente fechada. Havia poucos estrangeiros na capital chinesa e a vida deles era completamente separada dos habitantes locais. António escreveu no livro que, naquela época, todos os diplomatas e jornalistas estrangeiros eram obrigados a viver juntos em um lugar demarcado pelo governo chinês. Precisavam usar uma moeda especial destinada aos estrangeiros em vez do Renminbi e faziam compras só em lojas especiais. Quanto ao trabalho, não podiam entrevistar qualquer pessoa se não tivessem autorização do Waiban, o escritório das comunicações exteriores. António nos contou sobre uma entrevista que fracassou:

"Era um trabalhador da empresa de transporte de Beijing que colecionava jornais e tinha dezenas ou centenas jornais em casa. Eu quis entrevistá-lo. Mas, naquela altura, precisava pedir a autorização ao Waiban da unidade dele para falar com ele. Depois, a Waiban da unidade tinha de pedir à Waiban do governo municipal de Beijing. Acabei por não fazer a entrevista, pois o processo era muito complexo."

Durante 12 anos, António viajou por muitas cidades chinesas: Shanghai, Tianjin, Chongqing, Nanjing, Kunming, Guangzhou, Shenzhen, Wuhan e outras. A seus olhos, as cidades litorâneas eram bem diferentes das do interior, devido ao nível de abertura. Ele disse que, em 1992, foi pela primeira vez à província de Guangdong, a região que se abriu mais cedo. E a imagem ali não se comparava à da capital chinesa.

"Em Guangzhou, já havia mais discotecas com jovens dançando. Havia muitos supermercados abertos à noite, os restaurantes também, 24 horas por dia, o que em Beijing ainda era uma coisa muito rara. Havia muitas motos, quando Beijing ainda tinha muitas bicicletas. Os primeiros telemóveis de que nós chamávamos Dageda foram absorvidos primeiro em Guangzhou de Hong Kong. Toda a gente falava sobre negócios e ganhar dinheiro naquela altura."

Guangdong foi a primeira região beneficiada pela Reforma e Abertura. Com o aprofundamento da política em todo o país, a sociedade chinesa registrou enormes mudanças. O dinamismo econômico chinês deixou uma impressão profunda em António. Ele disse que a infra-estrutura que se faz na Europa demora muitos anos. Na China, no espaço de uma geração, fizeram-se as coisas como não se conseguiu fazer em nenhuma outra parte do mundo. No entanto, a maior mudança, para o jornalista, ocorreu na mentalidade.

"A própria China está a conhecer melhor os estrangeiros. Antigamente, os estrangeiros conheciam mais sobre a China do que os chineses conheciam sobre o estrangeiro. Antes, uma vez que os chineses olhavam para os Laowais, eles gritavam Laowai e achavam todos iguais. E agora, conhecem que também há diferenças. Isso demonstra que a China está mais aberta e acha mais valer a pena a conhecer outras realidades. Antigamente, muito poucos chineses viajavam fora da China. Agora milhões de chineses vão ao estrangeiro para estudar, fazer negócio ou passar férias."

As mudanças se encontram em todos os setores chineses. Como um profissional da área de imprensa, António destacou que a mudança nessa área é que os chineses de hoje gostam de confirmar e publicar seus problemas.

"Antes só havia notícias positivas praticamente. Agora, os jornais, as rádios, a televisão também mostram que há problemas e aconteceram coisas más que precisam de corrigir."

António usou como exemplo uma notícia que leu recentemente publicada no jornal Beijing News: Algumas pessoas de Shandong que escreveram cartas de reclamação para o governo central sofreram tratamento psiquiátrico pelas autoridades locais. A agência Xinhua e o China Daily também noticiaram o fato. Ele acrescentou:

"Todos os dias há notícias da imprensa chinesa que antes não apareciam, caso de leite contaminado, por exemplo, corrupção, greves, protestos?Os jornais informam as notíticas não porque gostam das más notícias, pois, essas ajudam a melhorar as coisas. Antes só escondiam os problemas."

Após voltar a Portugal em 2002, António escreveu o livro Pela China Dentro. O objetivo é mostrar o máximo sobre a China durante os 12 anos que viveu aqui e ajudar as pessoas a conhecerem melhor o país. O livro foi bem-recebido em Portugal e recebeu muitas críticas positivas. As pessoas ficaram com curiosidade de conhecer a China pessoalmente depois de ler o livro, enquanto outros que já conheciam o país queriam saber de sua atualidade. Quando questionado pelos leitores sobre como está a China de hoje, António responde assim:

"A China é um país que já mudou muito, mas tem que continuar a mudar mais ainda. É um país também com muitas diferenças e contrastes, entre o interior e o litoral, entre a cidade e o campo, pobres e ricos. Como a China está mais ligada ao resto do mundo, tudo o que se passa no mundo afeta mais a China e o que se passa na China também afeta mais o resto do mundo. Portanto, a China e o mundo precisam de se harmonizar cada vez mais. Acho que este é o desafio que se coloca hoje. É um país que tem muitos problemas, mas a maneira como tem conseguido resolver estes problemas, parece bastante positiva."

Enquanto elogia os progressos da sociedade chinesa, António também não negligencia os problemas surgidos durante o desenvolvimento, como, por exemplo, o problema ambiental e o desequilíbrio entre ricos e pobres. Mas, ele acha que todas as sociedades têm sempre novos problemas. E esses problemas podem ser considerados como o preço que se paga pelo desenvolvimento.

"Quando se abre a janela, há sempre o perigo de entrarem moscas, mas se a pessoa não abre a janela, não respira ar puro. Claro que houve problemas que não existiam antes, mas também há coisas que antes não se pensava e hoje existem. As pessoas comprarem suas casas, automóveis, trabalharem onde quiserem, isso há trinta anos era impensável, e hoje é uma realidade."

Seis anos depois de partir, António voltou a Beijing em setembro deste ano. O ritmo de desenvolvimento da capital chinesa durante sua ausência o surpreendeu. Os estádios dos Jogos Olímpicos, o novo anel viário e as novas construções fazem parecer que é uma cidade nova. No final da entrevista, António fez os votos para o próximo ano.

"Meus votos são de que o progresso e as mudanças continuem em um bom sentido."

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