Sofrendo de calor
Wang Wei
Um sol em brasa, no céu, na terra,
Nuvens de fogo envolvendo as montanhas.
Calcinadas as ervas, murchas as árvores,
Secos os rios, enxutos os pântanos.
Como pesa, no corpo, a mais leve de todas as sedas!
As árvores frondosas quase não dão sombra,
Ninguém pode descansar em esteiras de vime,
A roupa de linho lavada três vezes ao dia.
Bom seria partir para um mundo lonqínquo
E livre, habitar num imenso vazio,
Deixando-me acariciar por ventos e brisas,
Rios e mares expurgando angústias, impurezas.
O nosso corpo, sempre uma fonte de cuidados,
Por isso, melhor deixar o coração adormecer.
Depois, franquear o Portão do Orvalho Suave
E alcançar serenamente a alegria, a frescura.
Fruindo a frescura
Wang Wei
Árvores majestosas, mais de dez mil troncos,
Águas límpidas correndo entre a névoa.
Diante de mim, o estuário do grande rio,
Espaços imensos pincelados pelo vento.
Cadenciadamente, as ondas humedecendo a areia branca,
Carpas douradas como nadando no ar.
Sentado num enorme rochedo, deixo os borrifos das ondas salpicar meu humilde corpo
E assim limpo a boca, lavo os pés.
Aqui ao lado, um velho, pescando.
Quantos os que, sem glória. Mordem, ávidos de engodo,
Desejando quedar-se a "leste das folhas de lótus?"
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