Balada da nascente das flores de pessegueiro
Wang Wei
Amante da primavera na montanha, o pescador sobre o rio de margens debruadas a pétalas de flores de pessegueiro.
De longe, olha as árvores vermelhas, não sabe onde está,
A sua barca desliza até ao fim das águas verdes.
Ninguém. Caminhos sinuosos por dentro dos montes,
De súbito, abre-se a montanha, começa a planície.
Na distância, entrelaçam-se árvores e nuvens. O pescador avança,
Mil casas descansam entre bambuais e sebes floridas.
Os lenhadores usam ainda nomes dos tempos dos Han,
As pessoas vestem roupa antiga, à moda dos Qin.
Outrora, seus antepassados habitaram em Wuling,
Hoje, cultivam arroz, cuidam dos jardins, por detrás do mundo.
Ao nascer o sol, galinhas e cães numa algazarra pela aldeia,
À noite, os lares em paz, sob os pinheiros, inundados de luar.
Todos querem conhecer o forasteiro, vindo de longe,
Convidam-no para suas casas, perguntam-lhe onde nasceu.
De manhã, varrem as pétalas diante dos portões,
Ao entardecer, lenhadores, pescadores regressam com as ondas,
Há muitos, muitos anos buscaram refúgio neste lugar,
Aqui se deixaram ficar, para sempre, como anjos no céu.
Quem podia imaginar pessoas assim, no seio da montanha?
Eram apenas montes longínquos, muitas nuvens brancas?
O pescador sabe, tão difícil encontrar estas terras de magia!
Ah, mas o pó do coração pede-lhe o regresso a casa!...
Para trás ficam os trilhos, as montanhas, os rios,
O pescador pensa conhecer já atalhos e caminhos.
Mas como imaginar tanta mudança nos montes e nos vales?!...
Ele recorda haver-se perdido na imensidão da montanha,
Depois, as águas verdes do rio tocavam uma floresta entre nuvens.
Na primavera, por todo o lado desabrocham flores de pessegueiro,
Ninguém mais sabe onde encontrar a nascente dos imortais.
Neste famoso poema, escrito aos 19 anos, Wang Wei recria talvez a msis conhecida de todas as utopias chinesas, a história da Nascente das Flores de Pessegueiro, da autoria do grande poeta da natureza Tao Yuanming (365-427). Eis a história:
"Durante o reinado de Taiyuan, na dinastia Chin (326-397), um pescador vivia em Wuling. Um dia deixou a sua barca avançar ao longo de um rio e esqueceu onde se encontrava. Descobriu um enorme pomar de pessegueiros em flor que se estendia por ambas as margens. À sua volta havia um perfume intenso, e pétalas caídas por toda a parte. Abandonada a barca, o pescador caminhou pelo pomar dos pessegueiros. As árvores terminavam na encosta, junto à nascente e depois, subindo o monte, o pescador encontrou uma pequena gruta no fundo da qual um luz brilhava.
Decidiu entrar mas a passagem era tão estreita que mal cabia uma pessoa. Mais além, a gruta alrgava e abria para uma vasta clareira. Na planície em frente havia casas e logo depois arrozais, lagunas, amoreiras, chorões e bosques de bambu, entrecortados por estradas e trilhos. Ouvia-se o cantar dos galos e o ladrar dos cães.
Havia gnete deambulando pela aldeia, camponeses semeando, usando todos uma roupa muito estranha. Os velhos, as crianças, pareciam alegres, felizes. O povo da aldeia mostrou-se surpreso, ao descobrir o pescado. Perguntaram-lhe de onde viera e o homem contou-lhes como se perdera e como os encontrara. Levaram-no então para uma das casas, ofereceram-lhe vinho, mataram galinhas e cearam em conjunto. As gentes da terra tinham muita vontade de o conhecer e também de lhe narrarem a sua história. Há já várias gerações, seus antepassados haviam escapado às guerras constantes no reino de Qin e famílias inteiras haviam procurado refúfio neste lugar isolado deonde, deste então, nunca ninguém mais saíra.
Por isso, haviam permanecido sempre afastados do resto do mundo. Perguntaram ao pescador qual era agora a dinastia reinante. Jamais tinham ouvido falar nos Han (206a.C.-220 d.C.), tão pouco nos Wei e Chin. Informados dos acontecimentos dos últimos séculos, os aldeãos qudaram-se em silêncio. Mais pessoas ainda se lhes juntaram e o pescador foi convidado a comer e beber em muitos lares. Alguns dias mais tarde, decidiu regressar e o povo da aldeia pediu-lhe que não revelasse a ninguém a existência desta pequena comunidade. 
De volta à barca, e depois à sua terra, o pescador anotou cada curva do caminho. Pediu uma audiência ao mandarim da prefeitura, contou o que lhe acontecera e logo foi enviada uma patrulha militar, na companhia do pescador, em busca da aldeia esquecida. Mas ninguém foi capaz de voltar a encontrar o caminho para o povoado.
O velho e virtuoso ermita Liu Ziji ouviu a história e decidiu partir, entusiasmado, na procura do lugar. Antes de poder encontrar qualquer vestígio da aldeia, o velho adoeceu e morreu. Passaram-se muitos, muitos anos. Jamais quem quer quer seja ousou aventurar-se pelos recantos da nascente do rio."
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