Mandarim de profissão, poeta, pintor, calígrafo, músico, eremita por gosto, pela quietude após o vagabundear do coração, Wang Wei (701-761) é uma das vozes mais sábias no imenso caudal de poesia que, há trinta séculos, inunda o mundo chinês de inteligência e serenidade.
Grande poeta da Natureza, Wang Wei sabe, talvez como ninguém, agarrar nas palavras, embebê-las na ressonância interior de uma sensibilidade fulgurante e depois, pela ponta do pincel ? os carateres chineses são escritos com um pincel ?, deixá-las flutuar em lagos de magia, finas, de seda, transparentes, como gotas de orvalho humedecendo a terra.
Wang Wei leva-nos consigo através da velha China, em iniciáticas caminhadas por montanhas plenas de vazio. Em boa companhia, vamos ouvir os murmúrios da brisa nos pinheiros, o canto das cascatas nas pedras de um rio, os gritos dos pássaros planando num vale. É um incitamento irresistível para enchermos os olhos, os sentidos, de tranquilidade, paz.
À noite, Wang Wei convida-nos a adormecer algures num templo budista, escondido na vegetação, na falda da montanha, debruçado sobre o mundo dos homens. De manhã cedo, ajuda-nos a subir por veredas, íngremes caminhos, até chegarmos a uma nascente donde brota água pura, e aí nos sentamos, aguardando o levantar das nuvens. Ao entardecer, sugere que fiquemos passeando os olhos nos novelos de fumo que sobem dos casais, ou no vôo das aves, de volta aos ninhos com o sol poente. Por fim, despede-se de nós e sobe de novo a montanha, tem um encontro com as nuvens brancas, vai entrar no infinito.
Deixa-nos umas taças de vinho, um açafate cheio de poemas, acena-nos de longe e diz:
"Regressem, regressem sempre, quando quiserem".
Inscrição jovial numa pedra
Os seixos bonitos na nascente cristalina,
Um ramo de salgueiro pincelando,
Ao de leve, a minha taça de vinho.
Se o vento da primavera
Ignora o sentir de um coração
Porque sopra para mim as pétalas da flor?
Fonte: Poemas de Wang Wei (Instituto Cultural de Macau, 1993)
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