Por Débora Portela
Quando se pensa em Idade Média logo vem à mente a Europa e seus castelos, os cavaleiros medievais munidos de espadas, a Inquisição, as Cruzadas, o Feudalismo, o início dos grandes descobrimentos marítimos, as entediantes aulas de História e filmes como "O feitiço de Áquila".
Enquanto isso, o que acontecia no Oriente, mais especificamente na China?
Não dá para dizer que o programa escolar do Brasil trata nem superficialmente a história do Oriente. Nunca soubemos nada sobre este lado do mundo distante na geografia, na história, na cultura.
A Idade Média europeia compreende os séculos X e XV. Muito antes disso, na China, Confúcio já havia influenciado toda a Ásia com seus pensamentos; o primeiro imperador da dinastia Qin, Qin Shihuang, já estava enterrado em Xian com seus Guerreiros em terracota; a Grande Muralha, que começou a ser erguida 200 anos antes de Cristo, foi finalizada quando terminava o período medieval na Europa, tempo em que o Brasil era descoberto. Dizem que nesse período as ciências e as artes da China eram muito mais avançadas do que as da Europa.
Claro, a história não é tão simplista assim. A intenção é apontar quantos fatos importantes sobre o mundo e sobre a China deixamos de conhecer. Eu mesma só me interessei pelo Oriente na iminência de vir morar aqui.
Essa introdução é para que possam entender a razão pela qual escolhi escrever sobre Chuandixia, 90 Kms distante de Beijing. A arquitetura do vilarejo remete à Dinastia Ming (1368-1644), período em que integrantes da família Han, residentes da província de Shanxi, se mudaram para lá. Mas o lugar viveu seu auge durante a Dinastia Qing (1644-1911) com a produção de arroz, pele e carvão.
Sim, um lugar da China medieval preservado! É como se o tempo tivesse passado por ali sem notar aquele vale encravado nas montanhas, perdoando-o de seus efeitos devastadores e deixando-o ali, intacto não fossem os reparos necessários à estrutura das casas, as novas gerações de moradores e os postes de luz.
O programa é de contemplação. Sugiro como primeira parada o alto da montanha, para se ter ideia do tamanho do vilarejo, da disposição das casas e de seus pátios, dos arredores e das montanhas que guardam o lugar. Nos aproximadamente 600 metros até o alto da colina, o melhor é ir parando para tirar fotos, apreciar a vegetação, perceber o cheiro do mato úmido, a evolução da paisagem. Trata-se de uma vista inimaginável para quem nasceu e cresceu em terras brasileiras.
Decisão perfeita a de visitar o vilarejo numa segunda-feira, dia em que simplesmente ninguém teve a mesma ideia que eu. Longe dos outros turistas que deturpam o cenário original, Chuandixia era então uma aldeia medieval inteira para os meus caprichos e curiosidade. Não tenha vergonha, invada sem medo as ruelas e se deixe perder nos labirintos que te levarão às surpresas, que revelarão outros atalhos e novos cenários, que aliás serviram de locação para diversos seriados e filmes de época chineses, um deles "Warlords", protagonizado por Jet Li. Em algum momento você vai se deparar com frases maoístas gravadas nos muros de diversas casas. Em 1958 e 1966, o famoso Exército Vermelho passou por lá e estampou neles slogans revolucionários, palavras de ordem e reverência ao grande líder chinês: "Vida longa a Mao Tsé Tung", "Avance corajosamente segurando no alto a poderosa bandeira vermelha do pensamento de Mao Tsé Tung", "Armar nossas mentes com o pensamento de Mao Tsé Tung", "Proletariado do mundo, uni-vos!". Mas as ações do tempo aos poucos apagam essa história, que alguns moradores tentam salvar com uma demão periódica de tinta. Chamam a atenção também dezenas de espigas secas de milho penduradas em diversas casas, sinal de boa colheita no ano corrente e pedidos de prosperidade para o seguinte.
A intenção era voltar a Beijing no mesmo dia, o que ficou só na intenção depois de conhecer o casal Han, morador de Chuandixia e que sobrevive do turismo, da fabricação de mel e do cultivo de alguns vegetais. As portas das casas vivem abertas justamente para que você entre, e foi o que fiz em várias delas. Movidos pelo dever de vender seus serviços, os aldeões são gentis e simpáticos, mas ainda não conseguem esconder o espanto e a curiosidade quando se veem frente a frente com ocidentais, ainda mais se eles têm barba, como é o caso do meu marido. É que os chineses quase não têm pelos. Na pousada do casal, a senhora Han me recepcionou com um cheiroso chá de camomila, pelo qual não quis cobrar. Marcio estuda chinês há pouco tempo, mas suficiente para um bate-papo informal com o senhor Han, em especial, que se revelou inteligente, politizado e curioso em relação às coisas do Brasil. Ele pertence a 15ª geração da família que chegou ali 500 anos atrás. Na parede da casa, 'dicas' de uma vida harmoniosa e saudável escritas há 150 anos em caracteres chineses tradicionais. História que sempre interessa aos turistas que visitam Chuandixia, comem e se hospedam nas casas das 40 famílias que resistem à vida simples do lugar. A maioria dos visitantes é de chineses, mas estiveram por lá japoneses, coreanos e europeus. Brasileiros o senhor Han viu bem poucos.
Tocados pela hospitalidade, simplicidade da gente e pelo cenário pitoresco, decidimos pernoitar ali. Dispensamos o cardápio e pedimos à senhora Han que cozinhasse todos os nossos pratos chineses favoritos. Enquanto nossas delícias eram preparadas, subimos a uma espécie de templo, numa montanha menor. Na pagoda externa sentamos para falar do grande privilégio em conhecer um lugar como aquele, cujas belezas naturais não eram o forte, como no nosso país, que acabara de ser descoberto quando Chuandixia já estava de pé. O que realmente contava ali eram os 500 anos de uma história e de uma cultura sofisticadas, um museu a céu aberto referência no meio acadêmico quando o assunto é China Antiga e arquitetura. Chuandixia é o mais preservado dos vilarejos erguidos na Dinastia Ming e somente em 1997 foi aberta a visitação.
De volta à casa dos Han, um jantar farto e gostoso encerrou as tarefas daquele dia cheio de surpresas, que terminou com nosso sono velado pela imensa escuridão da noite, desafiada apenas pela lua, e um silêncio que só a China é capaz de proporcionar depois de séculos e séculos de história, inimaginável para quem mora nas grandes cidades.