Por Anamaria Boschi
André chegou por essas bandas há pouco mais de um ano. A decisão de atravessar o mundo já havia sido tomada mesmo antes de definir a China como destino certo. Ele vinha tentando estudar na Europa, Índia e até em Macau, onde descobriu um curso de imersão linguística e cultural. As tentativas foram muitas e a paciência quase se esgotou, mas não o suficiente para fazê-lo desistir. Depois de passar por várias etapas de um processo extremamente burocrático que incluiu vários exames, documentações das mais variadas, cartas de recomendação, inúmeros emails, apresentação de um projeto de pesquisa e até mensagem no Orkut, este paulista aterrissou na China.
André foi um dos brasileiros selecionados a receber uma bolsa de estudos integral do governo chinês. Além de um salário para a realização do mestrado, todos os demais gastos com habitação e alimentação são pagos. E, pra completar, o tal do mestrado é simplesmente na Academia de Cinema de Beijing, a maior escola de ensino audiovisual da Ásia. O curso oferece um ano de intensivo de mandarim e os outros três são dedicados à produção audiovisual independente. Pode?Eu é que queria estar na pele do André! Pra quem não sabe, a Academia de Cinema de Beijing (BFA, na sigla em inglês) formou os mais respeitáveis diretores do cinema chinês.
Os mais conhecidas diretores chineses entre o público ocidental são da Quinta Geração. Nomes como Hou Hsiao-hsien, Chen Kaige e Zhang Yimou fazem parte desse grupo de influências e estilos bem diversos. Essa classificação em diretores que ingressaram em 1978 na BFA não justifica a existência de um movimento. Após a Revolução Cultural (1976), os estudantes puderam voltar às Universidades e a BFA passou a matricular novos alunos em 1978.
E voltando ao André, pelo menos para os parâmetros da leiga aqui, ele já adquiriu uma certa fluência no mandarim. Acredito que depois de um ano em completo transe, completamente imerso nessa língua que particularmente me assassina diariamente, esse brasileiro estará mais bem adaptado. Por meio de uma amiga em comum, acabamos nos encontrando num dos meus pontos preferidos de Beijing, Nanluoguxiang. Bom, papo vai, papo vem...ele conversou numa boa com a garçonete que eu vinha tentando chamar a atenção, e descobrimos que, além de compartilharmos a língua, passaporte e sotaque (interior de São Paulo, coitados de nós dois!!), o cinema é nossa paixão comum. André é o que podemos definir como um cineclubista dos mais entusiasmados. Em pouco mais de um ano, ele se tornou tutor na Central Academy of Fine Arts (CAFA), a maior escola de arte da Ásia, e ainda está organizando um Cineclube dentro da Beijing Film Academy para exibir filmes brasileiros!
Pra quem não é familiarizado com a coisa, cineclube é uma espécie de centro cultural sem fins lucrativos, onde não somente se exibem filmes, mas também serve de palco para seminários, oficinas e cursos sobre cinema. É uma forma de promover a arte visual não- comercial, e no caso do André, do cinema brasileiro, pouquíssimo conhecido na China.
Pois é, os planos do cara não vão parar por aí, viu? E ele encara o choque cultural como mais um incentivo. Uma série de surpresas o trouxeram a Beijing, mas acredito que toda essa curiosidade ímpar e força de vontade vão levá-lo bem longe (e num sentido mais figurado, pois nem se ele quisesse daria pra se distanciar mais de casa). E a própria cidade também contribuiu para despertar tudo isso, as cores e a diversidade da capital chinesa deixariam qualquer cinematógrafo enlouquecido!
Não preciso nem falar que o intercâmbio cultural entre o Brasil e China ainda está demorando pra caminhar, mas espero que pessoas como André possam criar uma ponte que se sustente independentemente de crise.
Bom, na espera da inauguração do cineclube e de quem sabe um longa rodado nas terras do Mao, eu fico por aqui torcendo pra que esses projetos se concretizem em breve!