Por Fernanda Morena
Foi numa manhã fria de setembro que eu estive, pela primeira vez, em um casamento chinês. Os noivos eram colegas de escola de um amigo meu e estavam juntos desde então. Foram 12 anos juntando dinheiro para uma casa e procurando um bom emprego para garantir o mês, todos os meses – além da poupança.
Naquele domingo, o sol não levantou. Pensei que seria mesmo uma lástima, casar sob nuvens carregadas, mas meu amigo me acalmou. "Eles já casaram."
Como assim? Então para onde estamos indo? "Para o almoço."
Concluir as bodas pode ser um processo de uma vida inteira – até os 30 anos, preferivelmente – na China. Ele começa com uma boa educação, para garantir uma posição melhor no mercado de trabalho. Dali vem a economia para a compra de uma casa e um carro – que, em geral, cai na responsabilidade do rapaz. As famílias ajudam; afinal, o casamento é o passo mais importante na organização social mandarim.
Encerrada a preparação prática, a data deve ser considerada. É importante que o número seja par – nada de se casar no dia sete, por exemplo. Se for ainda um número gêmeo, como oito de agosto (8-8), ou dez de outubro (10-10), então, as bênçãos do universo estão garantidas. No ano passado, o dia da abertura das Olimpíadas estabeleceu um recorde no livro do Santo Antônio chinês das graças atingidas, quando o Serviço de Registro de Matrimônio recebeu, só em Beijing, mais de mil pedidos de casamento. Neste ano, a Semana Dourada – aquela do Dia Nacional, em outubro – foi a preferida para o grande sim da vida de milhares de apaixonados.
Dia, lua e um feriado de quebra acertados, passa-se para a organização da festa, que também não é lá uma coisa de vapt-vupt (mas até aí, nada de novo para a gente, né?!). A noiva chinesa não precisa de um vestido. Ela precisa de dois, no mínimo. Um branco para o início do casamento e um vermelho para o almoço/jantar. Algumas ainda vão ter um dia só para fotos – o momento noiva superstar, em que ela trocará de roupa umas 15 mil vezes e posará para 20 mil fotos ao lado do marido. Depois, algumas ainda vão investir em um modelo zero quilômetro para a assinatura do certificado de casamento – quando os dois vão ao Bureau de Registro de Casamento e assinam o acordo (romântico, não?!). Dali, eles já saem casados – ou para o trabalho, ou para um jantar com os pais e sogros. Sem a pressa da lua-de-mel (que pode acontecer em um momento mais apropriado, como as semanas dos feriados nacionais).
O almoço a que eu fui correspondeu ao terceiro passo. O anúncio público de que, a partir de agora, os pombinhos responderiam pelo mesmo sobrenome. Aparentemente, o horário da festa e toda a organização varia de cidade para cidade. Em Beijing, foi ao meio-dia. A já esposa usava branco, e o marido, um fraque. Nós, os convidados, calça jeans e blusas. Nada de maquiagem, salto alto ou ternos para nós, que nem coadjuvantes éramos.
Esta foi minha segunda grande surpresa. Não precisaria me produzir, cortar o cabelo, procurar uma manicure e comprar um vestido novo. O dinheiro poupado foi para o hongbao, um envelope vermelho que faz as vezes de presente – e ajuda a pagar pelo meu consumo durante a festa. Achei um barato a praticidade. Sem mau humor por causa de um salto alto, nada de sombras e blushes forçados logo de manhã. E a noiva era certamente a mais bela da festa. Ponto pro casamento chinês. A melhor parte, pensei, será na hora de dançar, já que eu estava em um confortável par de sapatilhas.
O casamento chinês é mesmo um espetáculo. Todo mundo entra no restaurante – em geral, de hotéis –, senta e assiste. Como no teatro, só que com vinho, suco e petiscos vindo sem parar. Nada mal, hein? E, para conduzir a programação, um mestre de cerimônia. No caso do meu casal, o apresentador em questão era um professor da 7ª série. Aquele que mais puxava a orelha do noivo e dizia para a noiva que ela era muito nova para namorar. No dia do casório, o professor se encheu de orgulho contando as histórias dos namoradinhos de tempos de escola.
Logo depois, a dupla vai à mesa principal, onde ficam os pais e avós, para um brinde. O noivo escolhe o momento mais apropriado para fazer uma declaração à família e chamar o sogro de pai. Todo cuidado é pouco quando eles têm que virar uma dose de baijiu (a versão nacional da cachaça), porque o rosto sempre se contorce com o álcool (volume 70%) e pode dar uma impressão errada. Para a mãe, ele ofereceu chá. A noiva fez o mesmo, só que, depois de servir o sogro da mesma pinga, descascou um chocolatinho e colocou na boca dele. Não poderia ficar mais família do que isso. E, para finalizar, ela colocou o cigarro na boca do novo pai e o acendeu.
Assim, eles vão pelas mesas. Tomando baijiu – e sprite, no caso da noiva. Esse é o único contato que se teria com o casal, ocupadíssimo com o cumprimento da tradição.
Não teve o cortar do bolo também. A ceia começava com uma discutível sopa de barbatana de tubarão. A mesa era frequentemente limpa e os pratos repostos. Amendoins, vegetais e todas as possíveis versões de carne. Eu, que sou vegetariana, fiquei comendo amendoim com pimenta e chocolate da lembrancinha. Deixou-me mais nervosa a possibilidade de, na falta de arroz soltinho, amendoins serem jogados (e não sobrou nenhum no prato para contar história). Depois de dois copos de vinho, eu estava pronta para arrasar na pista de dança.
Porém, não teve dança. A cerimônia tinha chegado ao fim. O noivo já tinha carregado a esposa no colo sob um arco vermelho, que representa a passagem para a vida no plural, com ela já vestindo algo mais tradicional da cultura oriental; um belo vestido de cetim vermelho. O bolo já tinha sido cortado – pelos convidados.
Se a falta de dança, de vestidos e ternos e tudo mais que a gente conhece como propriedade de uma cerimônia de casamento causa estranhamento, eu acho que serve de lição. Nada de dor nos pés, mau humor gratuito e gasto desnecessário de dinheiro para todo mundo encher barriga (para não dizer outra coisa). Casamento é para ter os amigos e familiares reunidos. Feito! E, de quebra, ainda levar um dinheirinho para o início da vida a dois é, no mínimo, uma lição a ser aprendida. E acho que a família das noivas brasileiras ficariam contentes – e a noiva não dividiria a atenção dada ao vestido dela com ninguém!
Como eu não tirei os olhos da cerimônia para tirar fotos, peço emprestada algumas da Rádio mesmo – para a gente não ficar muito só na imaginação.