Yi Yin foi um sábio conselheiro imperial da dinastia Shang, que prestava ao seu monarca advertências honestas e tomava sempre a peito os interesses do povo. Este tipo de figura, um dos modelos a que o folclore chinês recorre com mais frequência, é criado pela cultura popular. Reflete indubitavelmente um facto: durante séculos, uma grande parte dos oficiais imperiais punha e dispunha de tudo o que há sob o céu...à excepção da virtude.
A lenda atribui a Yi Yin o estabelecimento da dinastia Shang (-1700 a -1100). Conta a lenda que, quando jovem, Yi Yin sentia uma grande indignação pelo desgoverno e pelas práticas desumanas de Jie, o tirano da dinastia Xia. Face a esse estado de coisas, Yi Yin decidiu ajudar a derrubar Jie e a converter o monarca do seu estado, o príncipe Tang de Shang, em governante de toda a China.
A tradição descreve Yi Yin como uma pessoa de aparência pouco atraente; de estatura pequena, tez escura, barba desalinhada, a sua figura atarracada tornava-se ainda mais grotesca pela corcova que lhe deformava as costas. Além do mais, nutria pelo vestuário um desinteresse absoluto. Não obstante, a sua perspicácia e sagacidade prevaleciam sobre a sua aparência. Um conto relata que, com a finalidade de se aproximar de Tang, se fez escravo de um nobre, cuja filha estava para casar com o príncipe. Yi Yin foi enviado à corte como parte do dote. Pouco a pouco, ganhou o respeito de Tang e finalmente foi promovido a ministro da corte.
Numa outra versão, Yi Yin era um camponês que dava de vez em quando opiniões inteligentes sobre os assuntos estatais. Tang, que tinha ouvido falar tanto dele, quis nomeá-lo seu conselheiro. Foi visitá-lo cinco vezes e acabou por fazer com que Yi Yin aceitasse o seu convite. O aurigário de Tang, chamado Peng, que ficou exasperado pela situação, disse: "Que importância tem esse camponês? Se quereis vê-lo, basta emprazá-lo. Porque correis constantemente atrás dele?" Tang replicou: "Não compreendes nada. Corro atrás de Yi Yin como um doente requer a assistência de um bom médico. Não o faço por mim próprio, mas para salvar o povo."
Fundador duma dinastia, como Yi Yin e Tang, foram dotados pelo povo de todas as virtudes devidas, enquanto os últimos representantes das dinastias caídas, como Jie, eram apresentados como tiranos malvis. Dizem que uma vez Tang perguntou a Yi que deveria fazer para fortalecer o seu domínio. Yi respondeu: "Cultivai vosso carácter moral, trabalhai em benefício do povo, recrutai para o vosso serviço homens com virtude e hábeis, e acima de tudo, administrai o Estado com benevolência e justiça."
Yi prestou um serviço incalculável a Tang na conquista de Xia. Um dia, Tang, impaciente de lançar um ataque contra os Xia, foi desaconselhado por Yi de o fazer: "Sopesai primeiramente a força dos Xia." Seguindo o conselho de Yi, Tang usou de um estratagema; suspendeu a entra dos tributos a Jie, de Xia. Este, em cólera, convocou os exércitos dos duques e príncipes que eram seus vassalos. Quando as informações indicavam que as tropas estavam devidamente reunidas e prontas para desencadear uma expedição punitiva contra Tang, Yi disse ao seu Soberano: "Agora, como podeis ver, Jie é ainda poderoso. Não é altura portanto de o atacar. É melhor esperar."
No ano seguinte, Tang voltou a procrastinar a paga dos tributos. De novo Jie chamou os seus vassalos, mas desta vez, muitos deles se mostraram relutantes em obedecer. "É chegada a hora de atacar", disse Yi, "Jie perdeu a autoridade sobre os seus vassalos." Com efeito, passando à ofensiva, as forças armadas de Shang obtiveram uma série de vitórias, conquistanto primeiro alguns estados vassalos de Jie e cercando, logo a seguir, a capital de Xia. Estavam apenas a cinco li (2,5 km) das forças inimigas, quando Yi, de repente, pediu que se detivessem. Tang ficou confuso e perguntou o porquê. O conselheiro respondeu tranquilamente que a moral do exército necessitava de ser galvanizada. "Mas o meu exército venceu todas as batalhas", protestou Tang. "É verdade, porém, até agora, só combatemos os estados pequenos. Desta vez, enfrentamos o monarca de um grande estado e esta batalha vai decidie o destino de uma dinastia. O mínimo erro será fatal", disse Yi Yin, ao que em seguida, mandou reunir todos os soldados; então Tang pronunciou um discurso, enumerando os crimes perpetrados por Jie, e declarou que a sua rebelião contra o tirano correspondia à vontade do Céu e do povo. Este discurso, conhecido na história como "a promessa de Tang", alentou como um bálsamo revigorante o espírito dos soldados. Na batalha que se seguiu, Jie foi derrotado.
Tang fundou a dinastia Shang e nomeou Yi primeiro-ministro. Após o falecimento de Tang, Yi continuou a trabalhar como conselheiro dos seus filhos e sucessores, Wai Bing e Zhong Ren. Depois da morte deste último, Tai Jia, neto de Tang, subiu ao trono. O ancião Yi começou a servir o seu quarto monarca.
Um dos seus primeiros "serviços" foi colocar o jovem Tai Jia em exílio. Nessa altura, Yi ostentava a alta posição de Ah Heng, tutor e instrutor do monarca. Era um professor severo, mas apesar da austeridade do velho mestre, Tai Jia deixou que o gosto pelas diversões lhe ocupasse o espírito, e pouco se preocupava com os assuntos do Estado. As coisas iam de mal para pior, o que forçou Yi a proclamar-se regente e a mandar Tai Jie para um lugar chamado Tong-guan (a sudoeste do actual distrito de Yanshi, província de Henan). Alí se encontrava o túmulo de Tang, e Yi julgou o sítio apropriado para o rapaz reflectir no seu comportamento desregrado, e reconhecer os seus erros.
Mas a intenção de Yi foi mal interpretada. Os funcionários da corte diziam que o velho conselheiro se preparava para usurpar o poder. Yi não prestou atenção a tais suspeitas ---- tinha uma firme convicção de que estava a trabalhar em prol dos interesses públicos.
Em Tongguan, Tai Jia sentiu-se arrependido do seu procedimento passado e decidiu iniciar uma vida nova. Volvidos três anos, Yi ficou satisfeito ao ver que o jovem rei se emendara, e em determinado dia, foi pessoalmente a Tongguan, levando consigo a coroa e o fato reais. Tai Jia voltou ao trono e tornou-se um governante competente e telentoso. Esta história é conhecida como "Yi Yin exila Tai Jia". Posteriormente, Yi sentiu tanto prazer pela atitude sã do seu monarca que redigiu um artigo, sob o título O Exemplar Comportamento de Tai Jia.
Yi Yin viveu até uma idade muito avançada. O próprio Tai Jia tinha já falecido, quando o sopro da vida abandonou o velho ministro. Então, Wo Ding, filho de Tai Jia, organizou o funeral do velho primeiro-ministro segundo os ritos e cerimónias usualmente reservados aos imperadores.
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