Entrevista a escritor português José Luis Peixoto
  2012-05-15 15:22:21  cri

Com uma dezena de livros publicados, José Luis Peixoto é um dos nomes incontornáveis da literatura portuguesa. Como tal, acaba por ser inevitavelmente um embaixador cultural do país. Na visita que fez recentemente à China, concedeu uma entrevista ao CRIpor na sede desta emissora em Beijing, falando sobre a sua obra e esta viagem ao país.

Miguel Torres (MT) - A notoriedade ganha ao longo do tempo é fruto da aceitação que o seu trabalho encontra no público. Como convive com essa notoriedade e com esse peso de representação da cultura literária portuguesa?

José Luis Peixoto (JLP) - Quando comecei a escrever, ainda adolescente, confesso que não imaginava que as coisas tomassem estas proporções. Mais tarde, quando comecei a publicar, também nada fazia prever que viesse a ter oportunidade de vir à China falar daquilo que escrevo, ou outros lugares que são bastante longe de Portugal e bastante longe dos lugares onde vivo e que servem de matéria paras aquilo que escrevo. No entanto, esse êxito crescente, essa aceitação cada vez maior por parte dos leitores, em relação àquilo que escrevo, trouxe-me uma quantidade de responsabilidades importante, porque trouxe também uma quantidade cada vez maior de espectativas em relação ao meu trabalho. Confesso que essas expectativas em relação ao meu trabalho são muito gratificantes para mim, na medida em que eu acredito na escrita como algo que se destina aos outros e que precisa dos outros para existir.

MT - Tem oportunidade de ser confrontado com o impacto do seu trabalho? O teatro será, com certeza, um meio mais direto, mais imediato, mas algo tão pessoal como é ler um livro – como lhe chegam as impressões causadas pelos seus textos? Tem contato com os seus leitores, tem formas de estabelecer canais de ligação?

JLP - O teatro é, realmente, uma forma bastante especial que nos permite ver de uma forma física a interpretação que os outros dão às palavras que foram escritas. O teatro não vive só do texto. O texto é um elemento entre vários outros e aquilo que os atores fazem no palco, aquilo que os encenadores fazem na gestão de todo o espectáculo, é justamente expor a sua interpretação daquele texto. Acabo por ter bastante oportunidade de encontrar os leitores daquilo que escrevo, em múltiplos encontros em que tenho oportunidade de falar do meu trabalho e também de ouvir essas mesmas reações. Tanto em Portugal, onde vivo, como em países de língua portuguesa.

MT - Sente, tendo a palavra como oficio, que existem barreiras linguísticas grandes entre os diversos países lusófonos ou as pontes que nos ligam acabam por ser maiores do que as diferenças?

JLP - Parece-me que as pontes são bastante maiores e que a variedade de sotaques e de vocabulário e de formas de utilizar a língua são uma riqueza da própria língua. Pela minha parte, aquilo que me parece interessante, é ter uma ação que vise ao apoio dessas mesmas pontes, sendo parte dessa riqueza. Por exemplo, sendo originário da região do Alentejo, em Portugal, tenho muita oportunidade e prazer em utilizar o vocabulário específico dessa região naquilo que escrevo ou mesmo na minha forma de falar onde quer que esteja. Mesmo que algumas palavras não sejam particularmente conhecidas no espaço do mundo lusófono, pelo contexto acabamos por nos entender. Gosto sempre muito de contatar com outras formas da língua portuguesa que nasceram em contextos diferentes e muitas vezes tentam exprimir uma realidade diferente daquela que me é mais conhecida, mas ao existir esse contato acaba por ser também uma fonte de riqueza para mim e de me ajudar a desenvolver a minha própria língua.

MT - Sei que esteve na Universidade de Comunicação de Beijing. Como surgiu esse convite?

JLP - Esse convite surgiu no âmbito de um projeto que saído da minha primeira visita à China. É um projeto que tem que ver com a tradução de alguns textos meus por alunos da universidade de comunicação e que se destinam, nesta primeira fase, a serem publicados na internet, na medida em que está facilmente disponível para toda a gente e é econômico.

MT - Qual o sentimento de um escritor que vem de tão longe, de um lugar tão diferente culturalmente como Portugal é em relação à China, ao ser confrontado com a mancha dos seus textos, escritos com os regionalismos do Alentejo, traduzidos para os caracteres chineses?

JLP - No caso da língua chinesa é bastante extremo, porque os caracteres em si são bastante impressionantes sob o ponto de vista visual. Também sob o ponto de vista fonético, sonoro, é incrível ouvir textos meus lidos em chinês, porque parecem não ter qualquer ponto de ligação com os textos originais e, no entanto, eu sei que há ligação. Apesar disso, posso perceber muito claramente, especialmente com o contato que tenho tido com esses estudantes-tradutores chineses, que para uma língua como o chinês o trabalho da tradução é muitíssimo grande e envolve uma criatividade e um profundo domínio da língua chinesa. Eu sempre me senti muito atraído para o encontro com esses leitores que estão mais distantes daquela realidade. Desde muito cedo que eu tive oportunidade de perceber a escrita como uma forma de comunicação. Comecei a publicar algumas coisas logo com 17 anos e sempre me senti puxado para esse encontro com o outro. Neste caso, esse encontro acontece de uma forma que é efetivamente muito extrema. A distância percorrida por esses textos é muito grande e isso fascina-me.

MT - Afastando-nos dos temas da literatura, tem alguma impressão forte que gostaria de partilhar acerca da China?

JLP - Das cidades que tive oportunidade de visitar, aquela que efetivamente mais me marcou foi Beijing. É uma cidade que tem um peso histórico enorme, mas ao mesmo tempo tem um peso avassalador da contemporaneidade chinesa. No que diz respeito à própria China, aquilo que mais me toca é a cultura. Os diversos e múltiplos aspetos da sua cultura. Desde a forma de relacionamento pessoal, que é bastante diferente daquela a que estamos habituados em Portugal, passando pela comida, pelas artes, pelas coisas mais banais. Por aquilo que se vê na rua. Em muitos aspectos, acaba por ser misterioso. Isso para mim é fascinante, porque me acrescenta formas de olhar o mundo, o que é sempre um enriquecimento grande. Tanto nesta minha visita, como na primeira que fiz ao país, tinha acabado de chegar e já pensava no regresso. É absolutamente fascinante! Sinto que seria preciso muito para realmente ter um entendimento mínimo da grande variedade cultural que este país representa.

MT: Obrigado pela sua presença no estúdio. Cá o esperamos no seu regresso à China.

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