Bruno de Conti defende Brics e aprova papel da China no multilateralismo verdadeiro
A voz firme da China na defesa de um multilateralismo verdadeiro ecoa neste mês com os discursos do presidente chinês, Xi Jinping, proferidos em conferências internacionais, como cúpula do Brics e o debate geral da Assembleias das Nações Unidas.
Para o professor do Instituto de Economia da Unicamp, Bruno de Conti, as crises são bem reveladoras para mostrar que não existe uma governança global efetiva no atual sistema internacional. No entanto, como “muitos desafios são inerentemente globais”, isso dá muita clareza de que a governança global, ainda liderada por potencias ocidentais pouco solidárias, precisa ter inclusão de atores do sul global. Nisso, os Brics estão em uma posição privilegiada para assumir função protagonista.
Para Conti, também pesquisador do Centro de Estudo Brasil-China, o Brics tem mantido uma estrutura de governança compartilhada e com votos iguais dentro do grupo. Essa prática possibilita uma boa referencia para um arranjo simétrico dos mecanismos multilaterais. Mesmo que a nova cúpula do Brics parecesse não ter uma forte impressão na imprensa internacional, os cinco líderes continuam demonstrando um tom consonante de representar os interesses e direitos dos demais países em desenvolvimento. Porém, o professor adverte que o Brics ainda necessita reforçar o diálogo com os países do sul global, a fim de acertar compromissos comuns e assumir realmente a responsabilidade.
No que tange ao questionamento de “quando a influência do Brics vai aparecer”, formulado por próprio economista britânico, Jim O’Neill, que criou o termo há 20 anos, Bruno de Conti citou o avanço do Novo Banco de Desenvolvimento para rebater, indicando que, com cinco anos de atuação, a instituição já aprovou 72 projetos de investimento com soma de 25,7 bilhões de dólares. Além disso, o banco se empenha em atrair outros parceiros, o que já teve bom progresso com a incorporação recente do Uruguai, Bangladesh e Emirados Árabes Unidos.
Falando sobre o caso da empresa chinesa Evergande, que abalou o mercado brasileiro, o economista escolhe a capacidade da China em lidar com crise financeira. Ele vê que o contingente anual de 30 milhões de pessoas saindo do campo para cidade garante o mercado dinâmico da China, o que propiciará suficientes oportunidades comerciais aos produtores brasileiros.
Como especialistas em estudo chinês, Bruno de Conti percebe e admira a visão chinesa holística. Por isso, “os chineses acreditam que o país não vai prosperar se outros perecerem e pensam numa comunidade de futuro compartilhado”, algo que não existe no ocidente, notou ele. Acrescentou que a China respeita a autodeterminação de outros povos e ao respeitar trabalha para o bem comun. “É necessário que a gente caminhe na direção apontada por Xi Jinping de tomar ações urgentes para concretizar um multilateralismo verdadeiro e uma governança global funcional”, finalizou.