Ciro Gomes destaca atitude negacionista que leva a tragédia da pandemia

Fonte: CRI Published: 2020-06-04 13:54:50
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Diante do cenário severo da epidemia no Brasil, em que o número de casos confirmados do novo coronavírus aumenta 400 mil em um só mês, o ex-ministro da Fazenda e ex-candidato à Presidência da República em 2018, Ciro Gomes, aponta que o atitude negacionista do governo e a prescrição do remédio não testado levam a tragédia do país.

Ciro Gomes defende o isolamento social como uma medida eficaz para conter a expansão veloz do vírus, dado a falta de vacina e de precedentes científicos. Apresentou também o que faria para tomar precauções e indenizar a população.

Quanto ao episódio da crise com a China, Ciro Gomes criticou a atual política diplomática do Brasil que não guarda os interesses e valores nacionais. Ele reiterou que a China é um bom parceiro comercial do Brasil e que nessa pandemia o povo chinês, como qualquer outro, é vítima e não pode ser culpado.

O candidato presidencial salienta que o mundo deve deixar de lado as postulações de propaganda por hegemonismo ideológico ou econômico para nos concentrar de forma fraterna na construção de nova ordem internacional. Espera que as lições da pandemia sejam bem consideradas pela humanidade.

No final, para quem quer ter uma visão nova sobre a crise política e econômica do Brasil dos últimos anos, o quarto livro de Ciro Gomes, o Projeto Nacional: o Dever da Esperança, proporciona uma reflexão para o futuro do Brasil e do mundo.

Segue os principais trechos da entrevista:

CRIpor: Quais fatores o senhor considera que causaram a disseminação tão rápida do COVID-19 no Brasil?

Ciro Gomes: O perfil demográfico brasileiro e a absoluta incompetência com que nossos governantes enfrentar o assunto. O Brasil tem metade dos domicílios sem o saneamento básico, o que evidentemente predispõe a sociedade a ser muito mais vulnerável do que uma sociedade minimamente igual. De outra forma, como sabemos que o isolamento social é a única saída, o governo federal trabalha até hoje contra o isolamento social e mistifica a população com uma proposta de remédio que é incompatível com o domínio da ciência. Essa é a razão da tragédia brasileira.

CRIpor: Como o senhor compreende a seriedade dessa pandemia?

Ciro Gomes: Pelas características do vírus, nem tem vacina e nem tem remédio, a velocidade de transmissão, a taxa de letalidade, tudo isso fazem dessa pandemia um episódio único na história da saúde pública mundial. Evidentemente que dentro de algum tempo a capacidade humana de desenvolver a vacina vai transformar isso em notícia do passado. Até lá, entretanto, vá ser criminoso você afirmar que isso é uma gripezinha. Em qualquer circunstância, nós precisamos sair dessa pandemia construindo um novo normal, porque aquilo que estava antes caracterizando a vida da humanidade, a exacerbação consumista, a falta de uma cooperação internacional, mais franca, especialmente em domínios tecnológicos que consultam saúde pública, a necessidade de compreensão das agencias multilaterais de que o esforço de uma ação tecnológica industrial não pode ser tão gravemente concentrada, são as lições que essa pandemia estão nos oferecendo.

CRIpor: O senhor defende também o lockdown como uma medida efetiva para controlar o surto. Mas é difícil implementar o isolamento radical, porque tem gente que precisa trabalhar para viver. Na sua opinião, o que o governo pode fazer para lidar com esta questão? Quais providencias o senhor tomaria para controlar COVID-19?

Ciro Gomes: Estabelecida a característica da pandemia, fica muito evidente que só o lockdown é a solução mais eficaz. Na medida que não existe vacina nem remédio, só o isolamento social radical é que permitiria não só a contenção da expansão veloz do vírus, como a diminuição do tempo de prejuízo econômico, que essa única providência possível determinaria. E a transição, se o lockdown fosse muito bem organizado e de forma bastante radical, na proporção do que fosse possível, os governos têm que indenizar as populações a partir dos seus estados mais pobres e financiar também a transição das empresas, especialmente das micro e pequenas empresas, para que elas possam suportar a queda certa de faturamento, que aconteceria dependentemente da determinação política de enfrentamento, não pela mera retração das populações, pelo medo natural que se dissemina com a mera notícia do efeito mortal da pandemia.

Isso eu teria feito. Pelo final de março, quando ficam evidenciadas características da pandemia, eu teria coordenado com os governadores dos estados e com os prefeitos municipais, e feito uma enorme campanha de esclarecimento para população, determinado o lockdown mais radical possível e saía imediatamente com um socorro para populações mais pobres, desempregados, autônomos e informais, assim como crédito para as micro empresas atravessarem essa pandemia, fora outras providências complementares, como uma dilação de responsabilidades tributárias e outros.

CRIpor: No início de abril, o ministro da Educação fez uma publicação ofensiva aos chineses e isso abriu uma crise entre dois países. Como o senhor avalia esse episódio e a atitude do atual governo em relação à China?

Ciro Gomes: É um desastre completo, e guarda coerência com os mesmos equívocos genocidas que explicam por que o Brasil transformou-se no novo epicentro global da pandemia. É um alinhamento pouco crítico, absolutamente hostil aos interesses do Brasil com a política atualmente dominante na América do Norte.

O atitude negacionista da pandemia, a prescrição do remédio não testado cientificamente para enfrentamento da Covid, se espelham na busca de falsos responsáveis por uma doença que poderia ter se iniciado em qualquer lugar do planeta da Terra, como aquela chamada “gripe espanhola” que nasceu nos Estados Unidos. E nem por isso seria justo ou razoável se culpar no povo americano e governo norte-americano por essa tragédia que a humanidade experimentam.

De outra forma, nós temos gravíssima consequência para além de um posicionamento absolutamente não diplomático, não profissional, estritamente ideológico, de alinhamento sem guardar qualquer interesse nacional brasileiro. Porque nesse instante por questões objetivas, a China é uma bom parceiro comercial brasileiro. E a China, nesta questão específica, é o único país que tem excedentes de equipamentos de fármacos para enfrentamento da Covid. Seja pela razão geral em que o Brasil em nenhuma circunstância deveria se alinhar automaticamente a qualquer nação do mundo, a não ser pela guia de valores como mundo multipolar, baseado na lei e não na violência, pela autodeterminação dos povos, pela solução pacífica dos conflitos, pelo respeito da autonomia, e não intervenção em assuntos domésticos das nações independentes. O Brasil também, pelo estrito interesse comercial, tem que guardar uma relação de muito mais respeito com a China e com outros parceiros do que aquilo que a nossa governança atual têm feito. A política externa brasileira é um desastre. Não é só com a China. Mas há hoje por exemplo uma gravíssima desconfiança com os nossos próprios vizinhos da América do Sul, dado o desastre com que todas as coisas do Brasil têm sido conduzidas.

CRIpor:Como o senhor avalia o comportamento da China ao longo do surgimento do coronavírus?

Ciro Gomes: O povo chinês, como qualquer outro povo nacional é vítima dessa pandemia. Não pode ser culpado. Ainda que tendo por pioneirismo dificuldade, contradições no reconhecimento da característica e da novidade que pandemia representava, ainda que não tenha sido capaz, de talvez no primeiro momento, porque isso talvez fosse impossível, dado a falta de precedente científico, notificado corretamente as próprias autoridades chinesas, a forma com que o isolamento em Wuhan e a forma com que no limite a pandemia foi enfrentada na China é exemplo e não defeito a ser criticado. Basta se lembrar que a China tem 1,3 bilhão de habitantes e tem menos de seis mil pessoas mortas. O Brasil com 280 milhões de habitantes já atinge 30 mil brasileiros mortos. O que quer dizer desta distância imensa? Isso sem falar na trágica ironia na sociedade norte-americana. Também por uma condução negacionista das governanças atuais, também pela falta de coerência na articulação de enfrentamento da pandemia e na sua prevenção entre governadores de estado e a presidência. Os norte-americanos têm amargura de ter luto de mais cem mil irmãos e irmãs que morreram.

Por tudo isso, nós devemos deixar de lado qualquer coisa menor e postulações de propaganda por hegemonismo ideológico ou econômico para nos concentrar de forma fraterna na construção de uma outra ordem de valores, em que volta a dizer que a humanidade seja guiada por ordem jurídica baseada no direito, e não na prepotência e na violência.

CRIpor: Do seu ponto de vista, quais serão os impactos dessa pandemia para a política internacional? Para onde leva o enquadramento global?

Ciro Gomes: Eu tenho muitas dúvidas. Há muitos que argumentam que a pandemia está tragicamente nos oferecendo para tentarmos uma nova ordem internacional. A ideia de que ser feliz é um acesso a um padrão de consumo que escapa da renda da esmagadora maioria da humanidade, que mata o planeta Terra, é uma ideia que deveria ser claramente negada a partir da consequência óbvia dessa pandemia. Entretanto, o egoísmo, a concentração do recurso econômico, consequente do extraordinário avanço tecnológico, está produzindo a minúscula casta de seres humanos ultrapotentes, em detrimento da esmagadora maioria da humanidade que aspira participar desse domínio, dessa conquista, desses confortos, desses símbolos de êxito social, e que só tem de volta amargura decepção e a revolta, que está produzindo também consequências graves na política. Eu lutarei muito para que o argumento trágico obtido a custo de tantas centenas de milhares de mortes na humanidade, seja argumento duro que seja, ou sofrido que seja, mas é um argumento para que nos esforcemos por uma outra ordem internacional, e para que a felicidade humana seja obtida em outros valores que não consumismo materialista.

*Agradecimentos: a entrevista foi feita com apoio do Pedro Josephi (presidente da Fundação Leonel Brizola de Pernambuco), do Arison Fernandes (diretor de Formação Política da Fundação Leonel Brizola), e do Wagner Dantas.

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