O dólar sob o governo Trump, impactos externos e a internacionalização do RMB

Published: 2018-08-21 10:07:07
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O dólar sob o governo Trump, impactos externos e a internacionalização do RMB

Trump havia prometido durante a campanha eleitoral melhorar os empregos dos norte-americanos (garantir maiores salários), o que seria alavancado pelo crescimento da economia. Interpretou-se que o déficit da balança comercial e a perda de competitividade da indústria deram-se em função de países que alcançaram uma posição superavitária porque não agiram de forma leal com os EUA. Esses países teriam construído vantagens indevidas ou por não garantirem a mesma reciprocidade de abertura para as importações dos EUA ou por manterem o câmbio artificialmente desvalorizado. Uma explicação adicional para essas vantagens seria o fato de que as empresas americanas deixaram de investir em casa para exportar empregos e investimentos.

Para resolver esses problemas, além aumentar tarifas e barreiras ao comércio, Trump prometeu desregulamentação e um pacote fiscal com vultosos cortes de impostos, o que liberaria capital e impulsionaria o investimento no mercado doméstico. Com mais investimentos, menos regulações e relações de comércio renegociadas, o setor manufatureiro e exportador dos EUA renasceria, a competitividade seria recuperada e o déficit de transações correntes diminuiria. A América seria grande de novo.

Como resultado de todas essas medidas, o esperado era que o dólar subisse. A equação era simples: a economia já vinha se recuperando no governo Obama, se Trump entregasse todas as medidas que prometeu o resultado provável seria o aquecimento da atividade econômica, o encarecimento das importações e o conseguinte aumento da inflação, a qual o FED responderia subindo juros, o que por sua vez atrairia fluxos de capital acarretando na valorização da moeda. Contudo, o dólar se desvalorizou no primeiro ano de governo e até o fim de abril de 2018. O que teria acontecido?

A explicação que parece ser a mais adequada é a que relaciona a queda do dólar com a lentidão do governo Trump de entregar tudo que havia prometido. Apesar de ter retirado os EUA da Parceria Transpacífica, nada conclusivo surgiu com relação às renegociações do NAFTA, as tarifas e barreiras ao comércio exterior não se alteraram de forma significativa (pelo menos até março de 2018), não houve pacote para infraestrutura e o tão prometido corte de impostos só foi aprovado em dezembro de 2017.

Contudo, esse cenário se alterou há alguns meses, quando ao corte de 1,5 trilhões de impostos do final do ano passado, o governo Trump acrescentou uma lei orçamentaria de US$ 1,3 trilhões em março. Tais medidas contribuíram para a tendência de elevação do déficit orçamentário, com a expectativa de que ele supere US$ 1 trilhão em 2020. A isso juntou-se o anúncio do aumento de tarifas de importação sobre uma diversidade de produtos de muitos países, incluindo a China. Finalmente o cenário para a subida do dólar se armou. O governo começou a entregar as medidas que havia prometido, com uma política fiscal frouxa, uma economia quase em pleno emprego e importações mais caras, as pressões inflacionárias começaram a indicar para uma política monetária mais apertada – juros altos – que está reconduzindo o capital para a valorização da moeda.

O impacto externo mais visível a partir da valorização do dólar é a transferência de capital para os EUA. O quanto tudo isso pode ser perturbador depende das circunstâncias na qual as economias se encontravam antes. Para a Argentina parece ter sido o fato derradeiro que tornou insustentável os problemas com a balança de pagamentos. Já para a China, o RMB mais desvalorizado parece ser interpretado, nesse momento, como uma vantagem, pois ajuda a aumentar a competitividade e é uma proteção adicional em um cenário de guerra comercial.

Em termos internacionais, a retomada da valorização do dólar deveria significar a expectativa de que a moeda reafirme o seu papel central no sistema monetário. Contudo, há contradições, pois o fortalecimento do dólar, do modo como vem se dando, a partir de uma política monetária apertada, e uma fiscal frouxa, baseia-se em um aumento de déficit. Como pode uma economia que excede continuamente suas capacidades sustentar uma moeda forte? E o que isso representa para o processo de internacionalização do RMB? 

Consideramos que em um cenário de curto alcance, a valorização do dólar pode significar perda de espaço relativo para o RMB. Mas em um cenário de longo alcance, as políticas que têm levado a valorização do dólar parecem carecer de sustentabilidade, uma vez que não é possível ignorar que há um problema gerado pela contradição de uma economia deficitária sustentar uma moeda forte.

Portanto, mesmo com a recente valorização do dólar, os prospectos para a internacionalização do RMB poderão evoluir de forma positiva, mas a depender de uma série de outras questões, das quais se destaca, na seara doméstica, a evolução da abertura da conta capital chinesa e sua compatibilização com os objetivos de desenvolvimento do país, e, na arena externa, o desenvolvimento de relações monetárias que atuem para oferecer soluções aos problemas gerados pela centralidade do dólar.

Lembra-se que no caso do Brasil, existem algumas iniciativas de cooperação monetária. O Brasil, em 2012, fora o primeiro país do BRICS a firmar um acordo de Swap com a China: 190 bi em RMB (aproximadamente US$ 30 bi, na cotação da época). O estabelecimento desse acordo endossava a política de “parceria estratégica global” pretendida pelos países. Apesar de não ter sido acionado, tal acordo demonstrou o interesse do Brasil em estreitar relações no âmbito monetário. 

Os bancos centrais dos dois países estabeleceram ainda estudos conjuntos acerca da viabilidade de um Sistema de Pagamento Local (SML). O uso do RMB nas operações comerciais e financeiras originadas no Brasil até o ano de 2010 era pouco expressivo. Todavia, a partir de 2011, segundo dados do Banco Central do Brasil, tem havido um crescente no uso do RMB (apesar de ainda continuar muito pequeno). Desse modo, tal sistema atenderia a demanda, derivada do crescente volume de transações entre os países, de criação de um mecanismo de compensação em moedas locais reduzindo custos de transação e simplificando o processo. Se o SML com a China será de fato estabelecido ainda não é possível afirmar, mas existem indicativos claros quanto aos ganhos potenciais de uma parceria dessas.  

Por fim, talvez o instrumento mais notável de cooperação e que pode gerar expectativas ainda mais positivas quanto à cooperação monetária seja por meio do BRICS e suas iniciativas. Focando apenas nas questões monetárias e financeiras do BRICS originou-se duas instituições – o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e o Arranjo Contingente de Reservas (ACR). Ambas dispõem de recursos financeiros sim, lastreados em dólar americano, mas há a possibilidade de emissão de títulos em moeda local. Em 2016 emitiu-se o primeiro lote de títulos lastreados em RMB para capitalização do NDB. Em 2017, foi instalada a primeira sede regional do Banco em Johanesburgo e em 2018 acordada a segunda sede em São Paulo. A instalação das novas sedes do Banco facilita e pode indicar o interesse do lançamento de novos títulos em moedas nacionais além de reforçar a “parceria estratégica global” defendida por eles.

Enfim, nesse momento de valorização do dólar, tensões comerciais, e queda geral no valor das moedas dos países emergentes, incluindo o Real, talvez seja a hora de pensar alternativas. No caso específico do Brasil, além de ser afetado, como todos os outros países, pela evolução da política monetária e fiscal dos EUA, o Real deverá nos próximos meses sofrer devido às incertezas trazidas pelo processo eleitoral e pela própria evolução de aspectos de crise em palcos externos, com destaque para a recente situação da Turquia. Desse modo, a tendência esperada é de desvalorização. Alivia o fato de podermos contar com quase US$ 380 bilhões de reservas que, em caso de necessidade, esperamos que possam mitigar uma desvalorização excessiva da moeda.


Ana Tereza Lopes Marra de Sousa (UFABC)

William Daldegan de Freitas (Universidade Anhembi Morumbi)


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